É sempre bom conhecer as pessoas um pouco mais a fundo, não é mesmo? Por isso, aqui no blog Reticências Culturais, esse vai ser um dos nossos compromissos: entender e saber quem é aquele ou aquela artista que merece, também, falar. Tem tanta gente por aí com tanto para dizer… sobre si, sobre o mundo. Então, vamos ouvi-las! 

Nesse primeiro momento, vamos conhecer o produtor cultural Mykaell Bandeira. Nome forte da produção mossoroense que, aos poucos, também está se consolidando em todo o território potiguar.

Mykaell Bandeira está de frente, usando óculos de grau, com boné do Festival Ribuliço, uma camisa cinza com um desenho de um lobo e de uma mão tatuada. De fundo, um muro pichado com cores de azul e vermelho e escrito várias palavras – FOTÓGRAFO: George Harrison

Formado em Serviço Social pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, e mestre no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais e Humanas pela mesma instituição, Mykaell trilha um caminho paralelo às salas de aula, mas que sempre flertou com a sua área de pesquisa – cultura, indústria cultural, políticas culturais, planejamento, entre outros. Aos 26 anos, ele já vem construindo uma baita trajetória na produção cultural da cidade de Mossoró e do Estado, que engloba a criação de festivais, a produção de bandas, de shows e de espetáculos, além de ser um grande incentivador da arte na região. Hoje, ele é o responsável pela Parêa Produções, produtora que já coleciona sucessos.

Nós conversamos com Mykaell para conhecer melhor essa figura da nossa cidade e saber dos seus anseios, origens, encontros, futuros, desejos, angústias, sonhos. Abaixo, você vai poder conferir a entrevista completa. Simbora embarcar nessa conversa? Com vocês, Mykaell Bandeira!

ENTREVISTA:

(Luiza Gurgel): Quem buscou quem? Mykaell buscou a produção cultural ou a produção cultural que buscou Mykaell?

(Mykaell Bandeira): Um pouco dos dois, sou uma pessoa viciada em arte e cultura, e muito fã de música, desde quando era criança. E sempre consumi muito disso, e me interessava sempre em saber de tudo um pouco, adorava assistir os documentários de turnês e festivais na MTV e ficava viajando com tudo aquilo, sonhava até em ser VJ da MTV porque achava o máximo aquela rotina com bandas, shows e artistas. E pra mim, naquela época, era uma realidade muito distante. Passava o dia assistindo essas coisas, e quando não era na tv, era no YouTube. E com o passar do tempo isso não mudou muito. Mossoró, apesar de estar localizada em uma região estratégica, não é uma cidade que recebe muitos shows e turnês fora do eixo da música comercial, que aqui tem o forró como gênero desse produto mais predominante. E a forma que encontrei de tentar mudar essa realidade pra mim, como consumidor, foi tentando fazer aquilo que eu sentia falta na cidade das coisas que eu gostava e só tinha acesso se viajasse para fora. 

(LG): E como foi que esse encontro começou? Em que ano, de que forma?(MB): Tudo começou na universidade, lá em 2013, mais precisamente, através do movimento estudantil, cheguei a fazer parte do DCE da UERN e tudo mais. A gente sempre pautava nas nossas jornadas de luta a questão da democratização cultural e o direito à cidade, à ocupação dos espaços públicos. Foi pensando nisso que criamos um coletivo chamado “Coletivo Pegobeco”, que era uma parceria da turma que estava à frente do DCE da UERN e da UFERSA na época, e fazíamos intervenções políticas e artístico-culturais na travessa Martins dos Vasconcelos, ali ao lado do Teatro Lauro Monte Filho, e onde também ficava a sede da antiga “União dos Artistas de Mossoró”. Nas ocupações culturais que rolava lá no beco sempre trazíamos algum tema da pauta política para debater, como por exemplo: Mobilidade urbana, feminismo, luta antirracista e anti-imperialista, dentre outros, além do próprio debate sobre a política cultural da cidade e do Estado. E depois montávamos uma vasta programação artística com saraus de poetas e poetisas, recitais, apresentação de cantores, bandas e bailarinos. Era uma parada muito massa e que logo a juventude da cidade começou a chegar junto. Vimos diversas bandas e novos poetas surgirem naquela época, em consequência das intervenções naquele espaço, onde as pessoas se sentiam livres para se expressar e mostrar sua arte. Mas nada daquilo tinha nenhuma pretensão comercial ou lucrativa, mas eu considero que foi minha primeira escola no meio da produção. Paralelo a isso, sempre organizava os “enterros do semestre” na UERN, que era uma festa no campus para comemorar o fim do semestre. Me lembro até hoje que o último que fiz a programação era digna de um festival, convidei 10 bandas pra tocar e me lembro que foi um sucesso, me lembro que o Centro de Convivência da UERN lotou tanto que os seguranças tiveram que bloquear o acesso na universidade porque tinha dado muita gente e eles ficaram com medo de perder o controle, tivemos que até terminar mais cedo do que o previsto devido a isso, mas foi divertido pra caramba. E depois dessa fase inicial, em conjunto com outros colegas da faculdade, em 2014 fundamos o “Centro Urbano de Intervenções Artísticas – CUIA”, que a ideia era ser uma ONG cultural, e assim como no beco, pensávamos a questão da ocupação dos espaços públicos e democratização da cultura. A ideia era ter um espaço aberto para apresentações artísticas e um local de formação continuada com aulas das mais diversas linguagens artísticas e de esporte, principalmente por ter ao seu entorno diversas escolas. Fizemos uma ocupação e minirreforma na Concha Acústica da praça Dom João Costa, aquela ali em frente ao colégio Diocesano. Chegamos a fazer um grande evento de inauguração com oficinas, apresentações de teatro e shows musicais. Depois ainda fizemos alguns eventos no local e fomos convidados também a participar da equipe de produção do I Acampamento da Juventude Potiguar, que aconteceu na cidade de Tibau, em 2015. Mas devido à falta de infraestrutura e de financiamento, somados à falta de apoio do poder público, o CUIA não durou muito naquele espaço e acabou encerrando suas atividades em 2016. Sempre fui muito uma pessoa do coletivo, mas depois dessas experiências nem todos quiseram continuar atuando na área, mas eu sempre tive a inquietude de querer continuar atuando no setor cultural, e foi no acúmulos dessas vivências que em 2018 decidi criar minha própria produtora, a PARÊA Produções, que é onde estou na ativa até hoje.

Mykaell está sorrindo, sentado, com óculos de grau, vestindo uma camiseta clara, uma calça preta e de tênis. Ele está num sofá de couro, entre duas janelas, numa parede com fotos de diversos artistas da música, como Roberto Carlos e Gilberto Gil. FOTÓGRAFA: Caroline Melo

(LG): Você acha que o mundo é realmente o melhor lugar para se viver?

(MB): Vivo para tentar acreditar que amanhã sempre será melhor que hoje. A gente cria nosso lar e aconchego em qualquer lugar, desde que a gente saiba filtrar as dores e males do mundo.

(LG): Quem é Mykaell à frente de uma produção e Mykaell quando está de folga?

(MB): A frente de uma produção sou aquela  pessoa atenta que fica observando tudo e tentando se multiplicar em mil, pra ver se todas as coisas estão acontecendo como o planejado, me metendo em tudo pra saber se está ocorrendo tudo direitinho! Aquele velho toque de tentar ter a certeza que tudo está sob controle, e que depois disso tudo, tenta só curtir o momento e se divertir. Se eu não estiver tendo prazer naquilo que estou fazendo, eu nem saio de casa. E quando estou de folga sou aquela pessoa que adora passar o dia deitado ouvindo música, vendo documentários, shows e conhecendo coisas novas. Também tenho hobby pesadíssimo em acompanhar canais no YouTube de comida, acompanho sempre os vídeos do Masterchef e do Canal dos Caçadores, adoro!

(LG): A gente vive, hoje, um momento em que a arte e a cultura passam por muros de uma censura mascarada de ideologia e um desgoverno que incentiva o não fazer da arte. Como isso afeta diretamente o seu trabalho e até a sua vontade de fazer produção?

(MB): Desde o golpe de 2016 que tiraram a Dilma da presidência da república, houve uma crescente onda conservadora no Brasil, e isso afetou em diversos retrocessos, inclusive no âmbito da cultura. Isso se agravou ainda mais no atual governo do presidente Jair Bolsonaro, que é uma das pessoas que mais ameaça a cultura em nosso país. Não à toa, um de seus primeiros atos à frente do poder foi o que extingue o Ministério da Cultura. E apesar desse cenário nebuloso, o que nos resta é resistir. E existir fazendo o que já fazemos, que é o que eles querem que acabe. A arte tem um poder transformador e de criticidade que pode nos levar além, e é exatamente essa fonte de transformação e criticidade que eles querem aniquilar. O Fora Bolsonaro é a palavra da ordem pra gente superar isso. Não tem hoje no Brasil como pensar um avanço das políticas culturais, a defesa do patrimônio histórico material e imaterial, a política de editais executada em outrora pelo MinC, a retomada da Lei Rouanet e da Ancine, e a volta do próprio MinC, com Bolsonaro no poder. O Brasil precisa superar essa onda conservadora, fascista, misógina e lgbtfóbica que assola o planalto do palácio para voltarmos a ter orgulho de ser brasileiro. E tenho esperança que esse dia chegará logo em breve e as eleições de 2022 serão um divisor de águas. É como diz o poeta: eles passarão, eu passarinho.

(LG): Uma das suas últimas grandes produções foi o Festival Ribuliço, um projeto fruto da Lei Aldir Blanc do RN que juntou diversas bandas do Estado para realizar, de forma virtual, um festival de música. Para você, que já está acostumado com a multidão e o calor humano que só quem trabalha com produção conhece, como está sendo ter que adaptar para o universo da internet? (MB): Em um primeiro momento é óbvio que o mais sentimos falta do nosso trabalho no meio dessa pandemia é a aglomeração e aquele furdunço de quem adora estar colado em uma grade na beira do palco, pra quem gosta de estar pertinho da banda e não quer perder nada do show. Mas a questão de adaptar as ações pro ambiente virtual ou trabalhar de home office pra mim, não causou um impacto tão severo. Isso se dá porque sempre tento, quando possível, pensar as ações presenciais com algo ligado ao ambiente virtual. Fiz isso em 2019, por exemplo, quando realizei a cobertura audiovisual de diversos shows que agenciei na programação do MCJ, que está presente no canal da PARÊA TV, no YouTube. E o home office já fazia parte da minha realidade também antes da pandemia, então nesse aspecto isso não mudou. Agora tivemos que ser muito cuidadosos com a questão da prevenção e dos protocolos de biossegurança contra a covid-19. Quando realizei o Festival Ribuliço;

Mykaell está com um boné e uma camiseta do Festival Ribuliço, com uma bermuda marrom, sentado e gesticulando as mãos e a face. À sua frente, uma câmera, que o aparece no visor. Ao lado direito, uma mesa de som. Ao esquerdo, uma luz. Atrás, prateleiras com livros e CDs  FOTÓGRAFA: Wigna Ribeiro

mesmo sem o público ali presente, foi um respiro pra renovar as energias. Fiquei feliz quando os artistas que tocaram no festival nos deram esse mesmo feedback, de sentir de novo aquele calor e emoção de estarem ali em cima do palco novamente. E pensei a montagem do festival justamente para tentarmos ao máximo chegar nesse feeling que sentíamos presencialmente, e que as bandas e público pudesse sentir isso também, e acho que conseguimos.

(LG): Hoje, você também é produtor da banda Ragganorte. Pode-se dizer que produção cultural de shows e espetáculos é semelhante à produção de um grupo musical ou são universos completamente diferentes?

(MB): Elas andam lado a lado. Sem os festivais, casas de shows, eventos, etc, o artista não terá onde se apresentar. E na outra ponta, sem os artistas produzindo sua música, sua arte, seja lá ela o que for, não tem como essas outras coisas existirem, pois é uma via de mão dupla, um depende do outro para existir. Por isso é tão fundamental ter iniciativas que fomentem essas ações também pra cadeia produtiva ter um impulso para fazer essa roda da economia criativa girar. Claro que não é a mesma coisa produzir uma banda e produzir um festival, cada um tem suas particularidades e necessidades, mas a gente está lá para que ambos aconteçam da melhor forma possível.

(LG): Recentemente, foi anunciado que você está concorrendo ao 16º Troféu Cultura 2021, na categoria Melhor Produtor Cultural. Como você está se sentindo com essa nomeação?

(MB): Na real, eu soube por um colega que tinha sido indicado na categoria de Melhor Produtor Cultural 2021, pensei que fosse até brincadeira, não acreditei até ele me mostrar de fato. Mas foi uma grata surpresa, principalmente por está concorrendo ao lado de pessoas que admiro tanto! Fico feliz em ter esse reconhecimento por parte das pessoas do segmento. Deve ser um sinal que tô fazendo o dever de casa, né?! haha

(LG): E sobre presente e futuro? Como estão os planos?(MB): No momento estou no processo de finalização do meu primeiro documentário, que é sobre o nosso querido poeta Antônio Francisco, que estou assinando a direção em parceria com a cineasta Wigna Ribeiro.

Mykaell Bandeira de máscara, boné, camisa preta, bermuda marrom e tênis preto, sentado à frente do poeta Antônio Francisco, que está com uma camisa estampada com tons de vermelho e amarelo e uma bermuda jeans. Ao redor tem muita planta, e duas cadeiras de balanço – FOTÓGRAFA: Wigna Ribeiro

O documentário está na fase de montagem, já realizamos todas as filmagens e logo em breve iremos anunciar a data de lançamento. E agora no mês de julho, lançamos o primeiro EP da Ragganorte, intitulado de “Música Popular Potiguar”, que foi a estreia da PARÊA como selo musical também. O disco tá quentinho e super dançante, pra quem ainda não ouviu, fica a dica! Estou preparando os caminhos pro Festival Ribuliço presencial acontecer. Minha meta principal é poder realizar a próxima edição do jeito que a gente sonha, com público presencial e as bandas fazendo aquela experiência incrível acontecer aqui na nossa terra. Mas isso só será possível depois que toda população estiver vacinada e os órgãos competentes liberarem as ações em massa. Mas estamos em diálogo permanente com outros festivais, inclusive no Brasil inteiro através da Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes) estudando a melhor forma para retomarmos com tudo nossas ações com muita responsabilidade e segurança.

(LG): A gente já pode ficar na expectativa e no aguardo de algo grande pela frente? Rsrs

(MB): Algo grande não sei, pois tudo é uma questão de ângulo hahaha brincadeira! Mas o que podem esperar de mim é nunca deixar de fazer aquilo que acredito!

(LG): Para encerrar, qual o mantra de Mykaell? Aquela frase ou pensamento que te define?(MB): Não tenho um, mas três mantras que eu levo pra vida, que são: Tudo passa; Pense fora da caixa; E por fim, tem aquela frase da música “Camaleão” da Luísa e os Alquimistas que acho que fala muito de mim, que diz: “Tem que ter criatividade pra viver da arte, sem desacreditar na sua identidade”.

Mykaell está apoiado numa janela com muitas pedras, olhando levemente para o lado esquerdo da foto. Ele está com óculos e um moletom cinza.  FOTÓGRAFA: Luiza Gurgel

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