VICISSITUDES TRANSVIADAS

Nas frases demarcadas pelo livro de poesia, Fernanda assemelha-se a Carolina, que decidiu extinguir o romance eterno após perceber a finitude da vida. Marcelina, que já falecera, hoje percorre nos ideologismos de Cecília, menina-mulher recém-desvirginada. As cores, já desfalecendo, nos escritos de Lispector, ultrapassam gerações diferentes do ser. Cada pouca tinta que vos resta finca reflexões nas mulheres do ontem, do amanhã e do agora. Beatriz presenteou a neta Luana com Woolf, que perfura o tempo desde sua avó Cristina. Luana passou a reconhecer o atavismo nos sublinhados das palavras; nos riscos do papel. Corroborando a máquina mercantilista do vender e adquirir, apenas as marcas de Dandara sobrevoam o espaço e caem no colo de Selena. O tempo que passa ancora nos rascunhos e rabiscos dos camalhaços. Neles, o tempo não existe. Ele só é. Maria complementava as ideias de Beauvoir nas margens das páginas – quanto mais poluídas, mais organizadas em sua mente. Agora, Beatriz alinha a seta evidenciada no canto da folha desenhada em 1974 para doismilealgumacoisa. Voltas e voltas de devaneios extraviados pelo tempo por pessoas desconhecidas que se unem ao uno através de grafismos e sublinhos. Histórias intercaladas. Caladas que gritam na categorização das perguntas não respondidas sobre si mesmas. Pada cada “aprendi com a primavera a deixar-me cortar e voltar sempre inteira”, Olívia entrega-se às fraquezas e ímpetos da vida. As linhas que se confundem entre os traços diagramados e as cismas verossímeis de Ana para com ela mesma entrelaçam-se com as indagações de Luma anos após. Os livros são testemunhas dos encontros costurados pelo tempo. E sem se conhecer, as Maria’s que descansam no livro de Queiroz no fundo do baú aguardam pelo próximo toque. Enquanto isso, a cor de “a vida toda é uma dor” vai desvanecendo, até que outro alguém a escureça novamente.

Luiza Gurgel 

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2 responder à “Crônica do dia: “VICISSITUDES TRANSVIADAS””

  • Beth
    setembro 28, 2021 no 11:14 am

    Enquanto arrancarem mulheres dos úteros, vamos evocando outras para nos conhecer. Temos nossas particularidades, mas os pontos de encontro são mais bonitos quando pensados no coletivo. A solidão de não entender o que acontece no seu corpo, para a mulher, é fatal.

    posso ter interpretado mal, mas o que entendi, me encantou muito!
    parabéns!

    • Luiza Gurgel
      setembro 28, 2021 no 11:18 am

      Que maravilha de interpretação! Muito bom saber desses diferentes olhares! Obrigada pela troca!

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