Que bonitas são as caminhadas, as curvas, as direções que a vida dá. Esse texto talvez seja muito mais um relato do que verdadeiramente uma notícia. Mas ambos os gêneros se confundem, se entrelaçam, em algum lugar e de alguma forma.

Acredito que a história começa bem antes d’eu nascer. O sentimento de contar histórias, sobretudo, reais, de pessoas, de lugares, de instantes, sempre me acompanhou. Isso até na fertilidade da imaginação de uma criança. Eu não entendia porque sentia isso, até que um dia alguém comentou que era a chama do legado do meu bisavô.

Deífilo Gurgel foi grande escritor, poeta, historiador, folclorista do Estado do Rio Grande do Norte. Nasceu no município de Areia Branca (verdadeiro polo cultural), mas foi em Natal, na capital, onde ele mais aflorou as suas artes. Um amante da cultura popular e potiguar, o também professor aproveitou as belezas da sua vida, desafiando o tempo e perfurando as estradas desse território, conhecendo novas pessoas, novas culturas e novos lugares.

Alguma gota havia de pingar aqui por perto. Não só na minha floresta, mas nas de todos e todas que tiveram a chance de cruzar com Deífilo em algum momento da vida. 

Pingou. Choveu. Molhou. Hoje, sei que minhas escolhas e minha arte não vêm de lugares desconhecidos. Espaços estes que aos poucos o meu destino me coloca cara a cara. Como agora.

Pela primeira vez, tenho a chance de lançar um livro. Uma obra literária que posso chamar de minha. Foi a partir da contemplação na Lei Maurício de Oliveira 2020 – lei de incentivo à cultura local mossoroense -, que o cordel “NOSSO CHÃO – A Terra Que Brota Cultura” pôde sair do papel. Ou melhor, se fazer presente nele de fato. A vontade saiu do mundo das ideias para ocupar o mundo da história. E agora, o mundo de quem o lê. 

Fotografia: Plínio Sá.

Tudo começou com a seleção no Edital Municipal. A ideia já existia, e até parte do cordel (os primeiros versos, talvez), porém foi somado às conversas e trocas que o livro foi tomando forma, ganhando voz e formato. 

No processo de pesquisa, que durou cerca de 2 anos, conversei com tanta gente importante para essa história, para esse “chão”, que eu faço questão de citar um por uma: Geraldo Maia, Katharina Gurgel, Plínio Sá, Dionízio do Apodi, Nôra Aires, Laércio Eugênio, Clézia Barreto, Gustavo Rosado, Aécio Cândido, Tarcísio Gurgel, Nonato Santos, Luciana Duarte, Damásio Costa, Carlos Batista, Marcos Batista, Lima Neto, Júnior Félix, Alexandre Neves, Chico Window Jeyzon Leonardo, Tony Silva e Pe. Guimarães.

As ruas, esquinas, bares, ligações e lares são testemunhas de nossos encontros.

Posteriormente a esse processo de estudo de campo e escrita, somou-se ao time desse grande abraço o multiartista Gabriel Azevedo, o companheiro de arte que fez todo o processo de diagramação e impressão, Gustavo Luz, o Serviço Social do Comércio – SESC RN, a colaboração da jornalista Amanda Veríssimo, os cuidados de Lourrany Sá, Marcelo Amarelo e novamente Damásio Costa, e tantos outros nomes que de uma forma ou de outra ajudaram a esculpir esse tesouro.

Fotografia: Plínio Sá.

Inicialmente, o “Nosso Chão – A Terra Que Brota Cultura” seria elaborado de um jeito mais simples, porém não menos relevante. O texto abarcaria aproximadamente cinco páginas, com algumas informações dessa trajetória. Mas me falem: como resumir em cinco páginas algo que existe há quase 150 anos? Até porque, se hoje fazemos arte, é pelo motivo de que muitos precisaram existir e resistir para abrir os caminhos.

Diante disso, e da forma como muitos e muitas acreditaram na ideia da obra, não havia como ser diferente, e o cordel tomou novas proporções. Grandes, do tamanho do abraço que ele recebeu. Com isso, o livro fechou as 32 páginas, com direito a um elemento a mais: o prefácio. 

Criei coragem e convidei o mestre maior Antônio Francisco, “que rimar ele, eu nem me arrisco”, como falo no cordel rsrs. O mais legal foi que ele aceitou. Recebeu-me na tua casa, me permitiu ler as palavras do “Nosso Chão”, e elaborou versos lindos e especiais para abrir as primeiras folhas do livro. 

Respire fundo e mergulho
Nas páginas deste cordel
Veja a alma da história
De Mossoró no papel
Muito bem contada
Por nossa Luiza Gurgel”
.

Não sei o que dizer com essas palavras escritas por Antônio…

Fotografia: Plínio Sá.

Com o cordel, pude conhecer pessoas que foram fundamentais para a cultura e a arte da cidade. Senti-me pertencente a esses espaços, teatros, cinemas, que ocorreram nestas ruas. E quero, através do livro, que pessoas do futuro possam ter esse mesmo sentimento ao rememorar a história da cultura mossoroense do passado. História esta plantada nos dias de hoje. 

Que o cordel “Nosso Chão – A Terra Que Brota Cultura” possa ser semente para o futuro, ao mesmo tempo em que é flor que brota do passado. E eu, nesse meio termo da história, sou só uma das tantas intermediadoras que floresce em Mossoró. Sendo artista, sou o que quiser.

Um spoiler para vocês:

“Que o futuro seja de plantio
Com um bocado de semente
Colhidas no nosso amanhã
Mas fincadas no presente
Como as pontes do passado
Construíram esse legado
Para perpetuar na gente

E que Mossoró não esqueça
Das artistas desse chão
É o verdadeiro tesouro
Encontrado no sertão
Que seja da semeadura
Nessa terra que brota cultura
Que cultivemos esse grão.”

Fotografia: Plínio Sá.

O lançamento do cordel “NOSSO CHÃO – A Terra Que Brota Cultura” acontece nesta quarta-feira (20), a partir das 19h, no SESC Mossoró, dentro da programação da Semana da Poesia da entidade. Na ocasião, ainda terá um show da banda Coisaluz e a exposição da artista Malu Araújo.

A ideia é deixar a maior parte dos exemplares nas bibliotecas da Rede Municipal de Ensino, assim como da do SESC Mossoró e da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Com isso, a população tem acesso com maior facilidade, sobretudo, crianças e adolescentes.

Estarei vendendo alguns exemplares num preço simbólico de R$10,00 durante o lançamento e posteriormente, caso ainda haja algum exemplar. Interessados e interessadas em adquirir a obra podem falar comigo em meu perfil no instagram (@luizagurgel_).

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