“Estamos vivos em meio à revolução dos bichos, mas a sociedade é dos poetas mortos”. Nem George Orwell poderia pensar numa sacada dessa. É quase como traduzir em uma frase os opostos de uma sociedade caracterizada pela desigualdade não só social, mas também humana. 

De um lado, bichos que se vestem de “humanos”, onde a calça é a hipocrisia, a camiseta é o autoritarismo, o sapato é a superioridade e a bolsa, talvez, é a prepotência. Do outro, um recorte que revela a faísca de esperança desse mesmo ser que se diz vivo. No filme de Peter Weir, o professor é a figura que traz essa chama. E na vida real também.

No meio de toda essa reflexão que nos converge a um tema central, que é a sociedade, um poeta, rapper, artista de uma cidade do interior do RN, Mossoró, acaba de lançar o videoclipe de uma das suas canções de trabalho, denominada “Do Interior do Nordeste”. Produto este feito para nos fazer olhar no espelho; protestar e incomodar a nós mesmxs. 

#paracegover: o ator principal com a máscara de porco e uma roupa social. Ele olha para um carro que está ao seu lado direito. Ao esquerdo, uma moto caída. Ao fundo, um parque infantil de praça de bairro. Fotografia: desconhecido.

No vídeo, um homem com cabeça de porco atravessa situações que demonstram, em atitudes, a sua arrogância e pedantismo por se achar superior aos outros. Como quando se envolve num acidente com uma entregadora de alimentos, e simplesmente, a ignora. Diz aí se isso não é comum na sociedade em que a gente vive?

Segundo Caboco, a música mostra realidades que conseguimos observar em nosso cotidiano, através de reflexões expressivas, e até trazendo o deboche como crítica ao sistema. O “homem-porco” (ou poderia dizer muito bem só “homem”, pelo que a música sugere) usa e abusa da população para manter seus privilégios, como o cantor explica. 

O diretor e roteirista da obra audiovisual foi o também artista Edu Bandeira. Ele diz que “Do Interior do Nordeste” traz uma história comum do nosso dia a dia, já que o que é retratado no videoclipe é simplesmente o que acontece na realidade, de diversas formas e jeitos. 

“A letra aponta o dedo para nossa sociedade capitalista. Faremos isso com o vídeo”.
Edu Bandeira, diretor e roteirista de “Do Interior do Nordeste”.

Essa não é a primeira vez que Edu e Cumpadi Caboco fazem trabalhos artísticos juntos. Dessa vez, surgiu a chance de produzirem algo no âmbito do audiovisual, e foi aí que começaram a pensar na ideia da obra. 

Outro artista que esteve envolvido foi o Comedor de Camarão, assinando a produção musical do projeto. Além também de outros nomes no elenco, como Bianca Cardial, Pepeu Savant e Nilsomar Martins. A produção foi da Carranca Bandeirosa, mas todo o projeto foi feito de forma independente e colaborativa. 

#paracegover: em primeiro plano, o diretor Edu Bandeira segurando a câmera plugada num estabilizador. De fundo, a atriz Bianca Cardial com capacete e mochila de entregadora agachada, com a mão encostada no chão. Fotografia: desconhecido.

Produções que chegam quase como um recado são características marcantes do artista Caboco. É o que um artivista faz. É o poder de transformação que a arte tem e é. Potência. Não sou eu que digo isso; é o próprio rapper, quando ele fala que tenta repassar a “forma Caboco” de ver a vida, a partir da transcrição da realidade em forma de música, protestando contra a injustiça e a exclusão social, evidenciando o processo de conscientização e protagonista da nossa gente.

No videoclipe, isso existe o tempo todo, como na presença da máscara, que revela uma segregação social causada totalmente pelo capitalismo, expondo as suas pseudo-hierarquias, os privilégios descasos e descalços e a agressividade do ser humano.

“Do Interior do Nordeste” é de nós para nós mesmos, como Caboco mesmo diz. E Edu acrescenta, dizendo que é, também, “para quem acha que só a vida basta”.

E aí, Caboco, quem é do interior do Nordeste é…?

“Cabocos e Cabocas”.

E para tu, Edu?

“sofrido, mas forte. Que nem aquela ruma de Cactos cobrindo a terra seca, ávida por água. Aí, é só cair uma coisinha de nada, que o chão se enverdece de vida. Mais ou menos isso aí”.

Que possamos ser cacto!

“Que esse trabalho possa servir de estímulo a todas as pessoas injustiçadas pelo sistema, para lutarem por seus direitos e promover uma vida melhor para o coletivo”.
Cumpadi Caboco, poeta e rapper.

Confira o videoclipe de “Do Interior do Nordeste”:

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